Histórias do aMar e do Morrer

  Há uns dias atrás encontrei a alma de um velho amigo. Encontrei-o por acaso, enquanto dormia, daquelas acasos que acontecem. Começou a falar-me da sua vida e a contar-me uma história que girava assim:
   “Velho amigo, não sei se já te contei, noutra ocasião esta história, mas não será de mais ta relembrar para que as tuas memórias se revolvam e vejas de novo esta novela que se passou comigo.
   Se bem te lembras, nos meus tempos de marinheiro, andava eu lá pelos mares, pelas águas vítreas que cobrem essa grande parte do planeta, quando uma melodia suave e encantadora me ecoou na cabeça. Foi quando passei uns rochedos que apontavam para uma gruta no final do meu caminho. A melopeia continuava e eu seguia-a como se fosse um perfume de mulher que chamava por mim. Como sabes, as estórias referem que por esses mares existem as Sereias, aquelas belas criaturas mitológicas que vivem no fundo dos oceanos e quando avistam homens no mar, lançam a sua cantoria de sedução para depois os atraírem até eles e segundo contam as tais estórias, matarem-nos.
   Eu não sei bem porquê, nunca mais me veio à ideia tal coisa, e deixando-me levar pela bonita cantoria, avancei até ao interior da gruta e quando lá entrei uma bela jovem cantava apoiada numa rocha em frente a um pequeno lençol de água onde se via o reflexo de uma donzela. Ela chamou-me, com certeza que eu fui. Caminhei lenta e receosamente até ela e quando já estava suficientemente perto, ela tocou-me. Abraçou-me. Beijou-me. Lembro-me daquela caverna durante longos dias. O certo é que nunca mais me lembro de voltar ao mar, nem da Sereia, mas agora que falo contigo, me recordo, meu amigo.
   A Sereia, bela e persuasiva que me levou para ela, lançou-me um feitiço qualquer, não penses que é baboseira, mas depois de a beijar, nunca mais senti o que era respirar. Acho que me matou. Aquela iníqua e perversa Sereia. Eu bem que me lembro de a ver a transformar-se, pensei de ser eu a sonhar, mas agora que reflicto, bem vejo que na verdade ela era uma farsa. A sua pele sedosa, cor de mel, a transformar-se numa pele seca e acinzentada; o seu rosto liso e puro como a água, a transformar-se numa ressequida cara, com uma boca enorme e com uns dentes aguçados; e aquela cauda, ela não a tinha quando lá cheguei, mais tarde pude vê-la, como era encantadora, tinha escamas de variados tons e todos eles reluziam com a pouca claridade que entrava pela gruta, mais tarde, sabes o que vi? espinhos, foi o que vi. Não mais vi cores, tudo era cinzento e sem graça. Maldita.
  E terminou, chorando e desvanecendo-se.

(Fonte: dizsebingo.blogspot.pt)

Posted Há 10 meses

Na cama com a Arte

  O cheiro a terra molhada invade as suas narinas como nunca. Uma torrente de odor que traz memórias ao seu pensamento e faz lembrar momentos passados. A roupa dela ainda permanece no corredor, forma um caminho denunciando a velocidade com que caminhava para o seu quarto e ao mesmo tempo despia cada peça de roupa com uma sensualidade enormíssima. O perfume é devastador, e todo ele paira sobre o aposento sombrio como uma neblina numa manhã de Outono. As janelas da varanda, que deixam ver a paisagem citadina daquela praça, transpiram as gotas do orvalho que caiu durante toda a noite. Cada uma delas escorre delicadamente pelo vidro, deixando um rasto molhado e criando um padrão anódino sobre ele.
  Ele permanece ali, no meio de todo aquele cenário. Restam os pedaços de uma época da sua vida outrora feliz. Uma época que celebra pouco tempo de vida, mas que deixa saudade. Um ano e parece que em todo este tempo nada se moveu, nada se modificou, nenhuma partícula de sentimento, nenhuma nuvem de desejo, nenhum beijo de prazer, se desvaneceu.
  A culpa escorre-lhe pelo peito, e a saudade passou a ser uma tela na parede. O amor foi guardado num cofre e a indiferença parece um par de meias que se tira todos os dias da gaveta.
  Jaz na cómoda do pobre artista o pincel engadanhado da tinta negra que borrou a sua última tela. Jaz também o copo que outrora possuiu água, mas agora só usufrui do pó.
  A lembrança de um luto que nunca foi feito está poisada sob o cadeirão de seda vermelha que permanece no seu canto. Um fato escuro, de botões cinza, com linhas brancas unindo aqueles pedaços de tristeza que nunca foram postos.
  Urge o primeiro sol do dia no horizonte e as gotas escorrem. Agora correm paralelamente umas às outras na ânsia de alcançar o infinito. A neblina continua e no fundo vêem-se silhuetas, pequenas e ténues, a caminhar pouco devagar para chegarem a um destino.
  O pobre artista permanece com a sua arte dentro do peito e, as pernas dentro da cama.

(Fonte: dizsebingo.blogspot.pt)

Posted Há 10 meses